Nas instalações da sede do Instituto Camões, em Lisboa, foi recentemente lançada uma obra invulgar. Trata-se de um audio-livro denominado Estória, Estória - II vol. - Do Tambor a Blimundo, de autoria de cantora cabo-verdiana Celina Pereira, que vem preencher uma imensa lacuna que se fazia de há muito sentir no campo das actividades interculturais.
A obra pretende ser um instrumento de apoio pedagógico e lúdico que põe nas mãos dos interessados na sua utilização uma história tradicional que recupera o que de mais importante existe na cultura cabo-verdiana na área da memória oral popular direccionada para as crianças.
Com este trabalho Celina Pereira dá um inestimável contributo para o desenvolvimento da interculturalidade e do multilinguismo, onde estes aspectos fundamentais das sociedades culturalmente multifacetadas apresentam hoje mais carências e onde é mais urgente que sejam reforçados: na faixa etária infantil, aquela em que deve fazer-se incidir uma acção qualificada conducente à criação de hábitos que transportem as crianças para uma prática que os habitue ao gosto pelos elementos essenciais das suas raízes, estejam elas na sociedade de acolhimento ou na da sua origem familiar.
Se Do Tambor a Blimundo já demonstrou na prática, mesmo antes do seu lançamento, ser uma peça que reforça a cabo-verdianidade de tantas crianças em demanda da sua identidade primordial, também representa um esforço no campo das trocas de experiências entre dois padrões culturais: a da origem crioula das ilhas atlânticas e as de várias paragens do planeta em que a aventura da diáspora fez poisar, um a um, os seres que compõem as comunidades cabo-verdianas no exterior. Desta feita, não só o espaço da lusofonia - que sai privilegiado de uma experiência como esta - mas ainda países como a Itália têm a partir de agora de mais uma ferramenta de trabalho no estreitamento das relações entre culturas e no entusiasmo das novas gerações pelos aspectos culturais que são a base estrutural da identidade de companheiros de actividade escolar.
Destinado a facilitar o diálogo entre crianças de universos multiculturais e pronto a ser manipulado criativamente por educadores e animadores, o audio-livro Do Tambor a Blimundo vai motivar os mais pequenos, para quem foi idealizado, mas também os adultos, mormente aqueles que, tendo que sair da sua terra natal, vêem nele transmitido o grito mais belo das suas raízes profundas: a cantilena com que mães e avós cabo-verdianas, contadoras de estórias, entusiasmam a petizada à tardinha, pelas achadas e campos, ou na beira-mar das ilhas, onde ainda hoje parece que ecoa a uma só voz a toada que conta cada passo da saga de Blimundo.
Com este trabalho, Celina Pereira afinal mais não faz que dar um passo mais na intensa actividade que vem desenvolvendo em duas frentes primordiais, tantas vezes em detrimento do próprio desenvolvimento da sua carreira artística de cantora: transmitir a cultura do seu povo e intervir no espaço de formação da personalidade multifacetada de jovens que vivem a aventura da interculturalidade. Indo beber inspiração a esse labor de anos e anos, agindo regular e directamente em escolas e outras unidades de formação infantil, a cantora da ilha da Boavista atreve-se agora a um trabalho de rigor que marca não apenas as edições cabo-verdiana e portuguesa nesta área específica, como ainda mobiliza esforços num espaço que ultrapassa em muito a lusofonia. Assim se impõe de maneira inovadora a própria língua portuguesa de matriz comum inter-comunitária, mas também o crioulo, numa esfera alargada de acção que certamente fará escola.
Quanto à importância musical deste evento, resta dizer que a peça comporta elementos essenciais da matriz musical crioula. Trata-se de uma recolha que aparece naturalmente no seguimento da actividade rigorosa que Celina Pereira vem desenvolvendo há anos, e que se reflecte significativamente nos seus discos, nomeadamente em Estória, Estória, memorável disco ainda da época do vinil, e memorável não apenas pelo conteúdo musical, mas igualmente por ser pioneiro de uma certa pesquisa do universo sonoro dos ilhéus cabo-verdianos. Esta maneira de exercer o seu «metier» conheceu uma nova fase quando passou a integrar o grupo restrito dos que desenvolvem actividades de criação artística junto à população escolar mais jovem, estimulando-os para a procura dos sons, mas também para o conhecimento do outro através dos ritmos e das melodias que campeiam em cada cultura específica.
Foi sem dúvida todo este labor desinteressado que o Presidente da República português decidiu homenagear quando fez Celina Pereira Oficial da Ordem de Mérito, Grau COMENDADORA
A música cabo-verdiana vive facilmente da melodia sólida e do riquíssimo ritmo. Com tal virtuosismo por base, dificilmente um disco pode deixar de interessar. Talvez por isso a maioria dos trabalhos discográficos cabo-verdianos não registe a preocupação em traduzir estruturas que lhe dêem mais corpo e proponham a quem escuta uma lógica sequencial muito para além da batida viva e do bom senso de um alinhamento que flua sem agredir.
Os trabalhos dos Tubarões, mesmo os do Bulimundo liderado por Katchás - que empreenderam pesquisas vanguardistas nas décadas de 70 e 80) e marcaram um período de viragem na evolução musical das ilhas - não cuidaram dessa possibilidade de fazer a iniciação à cultura global cabo-verdiana através da apetência registada, um pouco por toda a parte, para com o seu rico sentido musical. De uma certa maneira - e já cronologicamente depois de Estória, Estória...No Arquipélago das Maravilhas -, um ou outro sintoma desta rara tendência pode ser vislumbrado na obra (ou na postura em palco) dos Sementera.
Nem que fosse apenas por isso, Estória, Estória..., de Celina Pereira (que depois já editou Harpejos e Gorjeios), projecta-se como marco no registo dos sons do seu país. Primeiro pelo sentido global de pesquisa, depois pela maneira como serve de fixação de memória da tradição popular, finalmente porque introduz um mundo mágico de partículas primordiais que em dado momento atravessaram e ainda hoje caracterizam a sociedade de certas ilhas crioulas mais isoladas pelas vicissitudes de um progresso desencontrado. Todavia, foram ilhas - Boavista e S. Nicolau, especialmente, mesmo Santo Antão... - que tiveram preponderância em dado momento histórico, concatenando no seu seio diversificados instrumentos de desenvolvimento e de solidificação de uma estrutura cultural dignos de nota. Depois, as barcas do progresso rumaram a outros portos. Essas micro-sociedades recusaram, porém, emudecer diante do imprevisto trágico da sua nova condição secundarizante, e enfrentaram a estranha forma de solidão que foi sentirem-se postergadas mantendo abnegadamente tradições e mostrando, de forma altaneira, o seu orgulho através delas. Não tenho a certeza de que isso tenha sido uma salvação para essas sociedades e se tal beneficiou o seu desenvolvimento. Foi-o, sem dúvida, para a salvaguarda desses moldes culturais. E para a manutenção de várias características matriciais da sociedade crioula.
Celina Pereira, boa filha da Boavista - e isso quer dizer que foi nada e criada em família cuja linha matriarcal manteve os registos de entretenimento de infância e a patriarcal (a quem, amiúde, compete a execução instrumental e a dinamização dos eventos lúdicos de tocatina) preservou linhas melódicas ancestrais - com vivência posterior na cidade portuária do Mindelo, teve ao seu alcance instrumentos de percepção da diferença entre várias correntes melódicas usuais e essas outras pérolas raras quase acobertadas pelo «anonimato» da prática comum.
A sequência narrativa faz-se através da voz de uma «botadeira de estórias», dessas mulheres peculiares e determinantes numa comunidade que, ao cambar da tarde, reúnem em torno de si pequenos e graúdos para contar histórias da tradição oral e fazer o desenho das vidas colectivas. A botadeira Celina fará a urdidura entre essa memória de antanho com outras mais recentes, como é a homenagem ao músico de eleição que foi Travadinha. Usará cantigas e músicas de casamento, irá buscar contos tradicionais, porá as crianças a executar cantigas de roda, recupera uma serenata «das antigas», reabilita um formosíssimo lundum. Através da história do personagem Antoninho ficamos enredados como se estivéssemos colados às saias da botadeira destas falas que compõem um disco histórico, de uma maturidade pouco igualada, quer musicalmente, quer na interpretação.
António Loja Neves In www.expresso.pt